sexta-feira, 8 de abril de 2011

Que Acaso



Do acaso puxo linhas.
Cai desfiado em fiapos
E tirinhas.

Vai ao chão todo o acaso
Ao revelar desenho 
De tapete bem bordado.

Torço o cenho: 
Tem sentido e foi pensado...
Não é mais acaso
O traço bem pintado.

É história bem contada,
Começo, meio e fim.
De sentido não é mais escasso
Mesmo assim, o olho o vê embaraçado.

Agora, com a linha já puxada,
Teço outra vez
Prosaica arte emaranhada
A revelar tanta história em mudez

E tais antigas linhas sem sentido
  – Ao exame dos meus dedos 
Agora é risco definido.

Cai ao chão todo o acaso
Quando o fio é mais que laço 
Indumentário e adorno

Mas, pincel do invisível
A dar sentido,
 Do infinito ao tenro choro.

E o acaso é falsário,
De verdade rara e para os poucos
A tecerem com os dedos
Os divinos sopros.


Mariana Melo

sexta-feira, 11 de março de 2011

O Atanor




Voltando para casa após a mais onírica das conversas com uma árvore, Tom saltava pelos pontilhados luminosos na grama que eram os próprios reflexos das estrelas. Lá onde e quando vivia Tom Camplot as estrelas com seus brilhos ainda encontravam caminho através da atmosfera para baterem no chão da Terra, ensaiando os homens para o que um dia chamar-se-ia eletricidade.
Naquela noite os pés de Tom pontilharam o que lembrava muito a imagem de um tigre de cenho muito, muito enrugado e isso nunca havia sido sinal de que alguém encontraria flores pelo caminho. Contudo, ao virar a primeira viela empedrada da parte do reino onde moravam lavradores e artesãos, o mais jovem dos Camplots quase tombou com a florista da cidade, Artemis Camplot, carregando as últimas mudas de lírios brancos da noite trazidos na maior das clandestinidades, pois os três sinos já haviam batido.
“Mamãe! o que a senhora está fazendo aqui fora! Sabe que não podemos ser pegos mais uma vez!” – exclamou Tom, deixando o susto para assumir um tom de impaciente reprovação.
“Você sabe que os lírios não podem viajar durante o dia, Tom.“ – explicou Artemis com uma paciência pouco usual para alguém ao ar livre após as três badaladas. Geralmente, quando alguém estava ao ar livre após as três badaladas o timbre da voz tremia, aflito e rouco.
Caminhando juntos com certa cumplicidade partilhada, pois ali estava alguém que conversava com árvores e alguém que arriscava a própria integridade física pelo bem estar de flores, os últimos dos Camplots carregavam uma paz que pouco existia naqueles tempos, fruto da combinação entre a coragem dos Camplots e o pouco apreço pelas regras infantis da época em que viviam.
Apreciava aquelas pequenas aventuras com sua mãe, a qual nunca o incentivara a bajular as leis emanadas de um rei fraco. E na caminhada cheia de culpa ignorada, pela segunda vez naquela noite, Tom Camplot lembrou-se da trouxa amarrada sob sua cama, junto com um mapa das Terras Ermas. Por lembrar-se da sua iminente partida, disse adeus em pensamento às ruas conhecidas. Por isto também lançava vários olhares ao rosto de sua mãe, despedindo-se num mudo adeus.
Tomou um pouco de lírios dos seus braços para aliviar-lhe o peso, admirando-se com sua calma, a fronte queimada de sol onde nasciam as primeiras rugas e estas apenas de vez em quando deixavam seu rosto, pois apenas de vez em quando ela deixava de sorrir. Encantava-lhe tudo, e gravava na memória as unhas eternamente sujas de terra,  os galhos e folhas a tecerem para sempre morada em seus cabelos cor de vime.
Mas o pontilhado de tigre continuava no chão e se Tom havia topado com flores até ali isto havia sido puro erro de configuração do encadeamento de acontecimentos daquela noite. De modo que tudo começa a entrar nos eixos e o tigre refletido sob seus pés começou a fazer sentido quando duas sombras no dobrar da esquina começaram a inchar no chão.
 De solavanco Tom conduziu Artemis para uma fenda num muro que outrora emurecia* mais do que um lote árido. Mas, por sua vez, ficou exposto, com o peito arfante escondendo o rosto com os lírios numa camuflagem quase cômica.
“ entre aqui, sabe que não pode ser pego mais uma vez!”
Exclamou Artemis numa bronca fora de hora para o filho.
“não vê que não tem espaço!” o sussurro nervoso, mais alto do que deveria, provocou um movimento brusco nas sombras que logo tropeçaram ao tentarem se postar em posição de ataque de forma muito amadora.
Com as últimas palavras, Artemis cerziu o pulso do filho com seus próprios dedos livres, puxando-o para a fenda que misteriosamente revelou-se um corredor.
“que raios...!”
“fique quieto, eles ainda podem nos ouvir.”
Caminharam sobre o que pareciam ser peças de artefatos de minério há muito abandonadas; com isso Tom pisou na ponta curva de um martelo, fazendo com que o cabo da ferramenta, por reação, golpeasse sua canela. Seu rosto encheu-se de dor segurada por um monte de ar de grito comprimido por suas bochechas.
“aonde estamos indo?!”
Mas Artemis não respondeu, apenas continuou a marcha já conhecida de seus pés que não pela primeira vez escapavam pelas passagens desconhecidas da cidade. Caminharam por bem uma hora, ao fim da qual respiraram o ar da noite ornado por estrelas e duas luas a mais.
“e agora, pode me dizer o que foi aquilo?”
“uma entrada para o jardim real, ou não está reconhecendo aquela árvore ali adiante” – Respondeu Artemis com a ponderação de quem parecia estar tomando chá, e não fugindo noite afora. Mas tinha razão, aquela era uma parte do jardim real em que as pessoas da cidade podiam freqüentar, e, sim, logo adiante repousava Arthô, o Cipreste Sábio, na plena imponência dos pinheiros.
[...]
“Sabe, Tom, há muito tempo os sábios ainda se sentavam ao redor de fogueiras e conforme fosse a audiência revelavam mistérios que há muito foram trancados debaixo da terra. Um deles, - e o único que cheguei a escutar - falava sobre o Atanor do Coração. Um lugarejo no coração de cada homem onde nada permanecia bruto. O problema é que quando se falava em atanor** logo surgia a problemática do espaço, sobre a qual argumentavam que um trambolhão desses não caberia no peito de ninguém.”
Artemis girou os olhos como da mesma forma como fizera quando criança, diante dos racionalismos angulares dos adultos.
“Mas nós, crianças percebemos logo que esse atanor não cabia no peito mesmo, mas sobrava espaço na imaginação e ali... ah... ali nada permanecia bruto como o chumbo.”
Por um momento o garoto e a árvore foram contagiados pelo suspiro de Artemis, vagando os olhos pelo céu como se não houvesse seres encapuzados num raio curto de distância procurando por eles. Enquanto escutava atento à história, Arthô providenciou duas folhas de sete copas enrolando-as com seus galhos mais articulados no formato de um copo rústico e mole, os quais encheu com doce suco de raiz tirado de três de suas próprias folhas retorcidas ao extremo e os estendeu aos dois humanos.
Com um aceno de gratidão, Artemis continuou, tomando um gole do líquido terroso:
“Achei prudente contar-lhe isso, Tom, porque me parece que logo logo você não poderá recusar algo que lhe transmute o medo em coragem. E esse mágico artefato que te falo deve acordar em você com esta história – numa pausa olhou fixamente para o coração do filho, o qual sentiu o frio da noite varrer-se do seu tórax - E talvez isso te ajude não só a transformar como a criar coisas novas...”
 
                                                                                                                                                          
*emurecer: colocar muros, cercar com muros de pedra, concreto.
**atanor: antigo caldeirão utilizado pelos alquimistas para, dentre experimentos, produzirem a pedra filosofal, capaz de transmutar chumbo – ou outros metais de bruta inferioridade – em ouro.                    

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

The Naked Thought






The pure sound flows
From the childish heart
It grows,
Without clothes or mask.

When the brand approaches
The iron goes cold  
Nothing can't melt its laces
Even when someone
With fists attached so told.

Because the chaste pure thought
Can't bear any ashes.

The naked thought stay
Calm. Has no fear or need
No claims for someone to say
“here is a blanket warm”

It’s the whole in its littleness
It’s the adult finding
Answers in its own hiding
Innocent bareness.


Mariana M.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Emurecer



Acontece que vez por outra Tom Camplot se dava a conversar com árvores, mais especificamente ciprestes, mais especificamente Arthô, o mais antigo dos ciprestes plantados na parte do jardim real em que as pessoas da cidade podiam freqüentar.
E naquele dia uma coruja magra anteviu o tamanho da conversa e se aconchegou sob as asas para embarcar num bom cochilo.
- sabe Arth, não entendo a falta de sede dos pés das pessoas que ficam na cidade para sempre – indagou Tom, numa indignidade serena, meio revoltado meio sonhador, domado pela imaginação lúdica sobre o que poderia encontrar fora da aldeia – Com tanta montanha emurecendo* os bairros, como não ter sede de ver o que está além?
- ah, meu jovem, acontece que nem todos os homens já se deram conta de que são homens e não árvores. Muitos ainda acordam e maldizem os próprios pés por serem obrigados a marchar, desejando mesmo é ter raízes... – a árvore, sentindo uma comichão nas próprias raízes ao dizer a última frase, fez tremer de leve a terra abaixo de si, acordando a coruja com um pio frustrado.
- e o que são os homens que maldizem as raízes querendo mesmo é voar? – aqui, o pensamento do garoto voou para a trouxa amarrada num galho escondida sob sua cama, junto com um cantil de couro e um mapa roto do oeste das Terras Ermas.
- esses têm um pouco de ave dentro deles, já entenderam que raízes são para os que não aprenderam a andar e descobriram dentro de si algo que veio de muito longe e agora quer voltar. – de vez em quando os galhos mais altos de Arthô se arranjavam de molde a parecerem olhos, e naquela altura da conversa esses galhos analisavam o garoto com uma desconfiança acertada de que o mais jovens dos Camplots era um homem ave.
- isso quer dizer que de alguma forma esses homens já estiveram nos lugares que hoje só aparecem em sonhos? – com isso, seus olhos nas nuvens desceram ao chão como um raio e sentou-se de um salto ao lembrar-se da noite anterior em que seu sono fora palco de um duelo etéreo com dragões de vento – mas isso seria impossível! Minha família não deixa a cidade há três décadas!
- hohoho o que te faz pensar que algures dos sonhos são mais impossíveis do que o mundo concreto da feira de domingo? Não deixe que seus pensamentos também criem raízes, meu bom rapaz. – com um de seus galhos mais perto do chão conduziu as costas do garoto de volta à grama – se queres chamar alguma coisa de impossível, chame os sapatos de cetim lilás do rei de impossíveis, não os sonhos!
- você tem razão, esses são impossíveis... – com um rizinho contido Tom  voltou a contemplar o desenho dos galhos do Cipreste sob o céu claro, reunindo coragem para perguntar o que há muito lhe atormentava: Arth, o que encontrarei lá fora tem a ver com meus sonhos?
...

*Do neoverbo “emurecer” – colocar muros; cercar de muros; construir muros ao redor.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Como Escrever

Once upon a time, when I was quiet imaginative child and had no friends I used to follow this simple rule to avoid boring ours: always to carry a book along. It could be any book, with which I was ready to happily go to any social event without the fear of being boring, talk or have to dance with anyone.

Nevertheless, there were times when I forgot my book, and that did put all my farewell state in jeopardy. The solution came years later when I realized that once that you have nothing to read, well, writing something according to your mood might be a fare fun boredom killer. Then a voice in my head tough me to…

Find adventure and landscapes inside your head. Then combine everything with brave passion and strength into your heart. And if you don’t have any, well, tell the world the story about how did you managed to get it. The greatest stories around is about people reaching out for some place or stuff. Why not to go on and on about the many roads and oceans that you crossed to find yourself a little bit of brave passion and strength.

That’s why I started to like writing: to always have something interesting to read with me. Or at least something to read.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

O Dia Mundial da Filosofia Está Chegando


O Dia Mundial da Filosofia está chegando. Entre toda sorte de dias, a homenagearem santos e cidades, dedicaram unzinho a tal busca da sabedoria. A mesma sabedoria da criança em mil perguntas sobre o porquê das coisas e da natureza; natureza esta que parece já saber porque isso e aquilo, escondendo risinhos de quem sabe entre uma semente a virar árvore e outra a virar semente.
Gosto deste dia, porque desde que foi criado vem sendo comemorado de um jeito para além da teoria. Neste dia, pessoas ao redor do mundo contam mitos em teatro e poesia, tomam vinho entre riso e palavras e falam dos mistérios do Universo em plena caminhada. Foi-se a época em que os filósofos aconchegavam a mão no queixo e lá ficavam.
Ainda há quem assim faça, em bancos de praça e palanques. Mas vem surgindo uma Filosofia cuja sede é finda em filosofias como a de Platão, lutando para tirar suas idéias só do papel; é    como a de Alexandre, que ensinava em plena guerra; como a de Confúcio, pois sabe o que é honra; é como a de Giordano Bruno, pela qual não só se vale a pena morrer em plena idade média, mas se viver cotidianamente.
Há certo tempo, conheci esta Escola de Filosofia a desvelar os segredos da vida sem escurecê-los ainda mais com teorias, mas descobrir explicações em algo bem perto: nós mesmos. Nesta escola mais vale saber uma página e vivê-la como o roteiro de uma aventura do que saber mil livros e ficar careca de tentar entendê-los.
Percebi com isto que a filosofia, ao contrário dos monumentos que a retratam, não é de pedra: é a arte em mil matizes de Michelângelo, foi à guerra das Termópilas, é a Ciência indo além de um Universo, é o ser humano em 2010, retomando a sabedoria da criança e, após um dia  cheio,  perguntar a si mesmo e à janela: por quê?




Para aqueles que curtem ou querem curtir Filosofia como maneira de encontrar respostas e vivê-las, fica aqui o endereço/convite de uma Escola de Filosofia presente no Brasil e mundo afora: www.acropole.org.br - www.nova-acropole.org.br

Para os Inquietos




Quem Leu o super primeiro post deste Blog vai entender que este texto pertence às escrituras do antigo blog que mandou lembrças.



Quando penso em filosofia e quando as circunstâncias me permitem falar dela, gosto de pensar em dois filósofos: o primeiro que foi o criador do nome filosofia; o segundo, aquele que é considerado o disseminador dela para toda a humanidade ocidental.
Penso, então, em Pitágoras e Sócrates. Ambos, ao praticarem (sim, praticavam, ao invés de ficarem entre quatro paredes falando de trás de um palanque) filosofia, portavam-se de uma virtude em particular: a humildade.
Pitágoras, por exemplo, inaugurou o termo filosofia na seguinte situação: seus discípulos, não se contentando em chamá-lo apenas de mestre, resolveram chamá-lo de sábio. Pitágoras, então, corrigiu-os, dizendo que não era sábio, mas um amante, um buscador da sabedoria: em grego, um filósofo.
Sócrates eternizou-se com o seguinte postulado: “só sei que nada sei”.
Portanto, caros, o que compõe o verdadeiro significado da filosofia é a busca pelo saber, sem partir do pressuposto de que sabemos algo. Daí, tentar aprender com tudo e todos, para não perder a oportunidade de sair de um segundo para o outro menos ignorante*.
Entendo que é quase inevitavel o comodismo de aceitar conceitos impostos e imortalizados por professores e pela TV. E entendo que os tapas da educação em série das massas ainda ardam em nossos rostos. E por saber que recebemos esses tapas desde antes de formar-mos uma consciência sóbria tenho compaixão por aqueles que chamam de filósofos o ébrio, o carregador de diploma, o poliglota, ou simplemente o homem de óculos no banco da praça.
Entendo que a decadência de valores e de autocontrole de nós mesmos e do curso de nossos pensamentos nos levou a crer que, o que hoje desune os homens se chama Religião, o que expressa o feio e podre se chama Arte, aqueles que compões melodias para o dadaísmo são Músicos, e menores impúberes com cabelos rebeldes fazem Rock.
Contudo, uma vez que conhecemos o verdadeiro e puro conceito de Filosofia, que tem a ver com o resgate de valores e virtudes. Que tem a ver com inquietação ante os esquemas armados sobre como viver e morrer dentro de caixotes. Que tem a ver com buscar a mudança que queremos primeiro em nós, depois ao redor . Que tem a ver com fazerd a vida a aventura de quem não sabe o que está no passo seguinte mas que deseja chegar ao desconhecido com os próprios passos...
Ah... quando conhecemos esse significado simplório e que tanto perde encanto na minha falta de destreza ao escrevê-lo, usar o nome da Filosofia para adjetivar homens e mulheres cômodos, que em sua ignorância dizem saber tudo enquanto lixam as unhas, torna-se um ato de covardia e desrespeito.
Portanto, deixo aqui a oportunidade de possuirem uma outra alternativa a respeito do que é Filosofia.
Oportunidade que recai primeiro sobre mim mesma – que tenho certo compromisso pelo que escrevo – e para leitores que por desventura ainda pensam saber algo enquanto não sabem sequer por onde começar a praticar o que sabem.
Oportunidade de tirarem das vistas um pouco da lama colocada pela informação manipulativa e meios que tanto contribuiram para o atrofiamento de nossos pensamentos sobre tudo.
Filosofia, assim como a Poesia, não é a tradução de vesos soltos sobre torradeiras e pesadelos. Não é o cultivo de pêlos no rosto. Assim como a Arte, não é a lata de tinta que por acidente forma uma imagem.  É a explicação sobre a essência humana, sobre o verdadeiro rosto de seus sentimentos e de suas marcas na História. Sobre o que se passa conosco, com a natureza e com o Universo.
Explicação que talvez nunca nos dê o conhecimento pleno, mas que engendra uma trilha de buscas e passos que por vezes tropeçarão, mas que tropeçarão por caminharem segundo seu próprio discenimento e consciência .
Tropeços que são mais dignos e preferíveis  do que uma vida de passos retilíneos e firmes que assim o são porque andam presos a fios e correntes enlaçados em seus pés; fios e correntes guiados por mãos de rostos ocultos.

*Ignorância: segundo Platão, em “As Leis”: “amar o que é injusto e odiar o que é justo”.